The Boys não é melhor que o quadrinho em que se baseia. É diferente.
E isto, que parece uma obviedade, acho importante dizer porque durante anos se repetiu a ideia de que a série da Prime Video melhorava o material original deGarth Ennis e Darick Robertson. Eu não vejo assim.
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Opinião rápida sobre a série
A série é mais acessível, mais televisiva, mais política e, nos seus melhores momentos, aproveita melhor alguns personagens. Mas o quadrinho tem algo que a série vai perdendo: uma trama melhor amarrada.
No quadrinho, a história avança porque precisa avançar. Na série, muitas vezes fica a sensação de que a trama existe para justificar a próxima cena fora de controle.
Não digo isso como crítica total. Parte da graça de The Boys está justamente aí: em ter feito uma série de super-heróis para adultos sem adoçar a violência, o sexo nem a má-fé. Mas uma coisa é o excesso fazer parte da sua identidade; outra é ele acabar substituindo a história.
E falando em história, The Boys é uma série que fez história: ainda se falará dela daqui a décadas, mas mais por algumas cenas isoladas do que pelo conjunto.
Do que trata The Boys
The Boys parte de uma ideia muito simples: o que aconteceria se os super-heróis existissem, mas em vez de serem figuras nobres e altruístas fossem produtos de uma grande corporação?
Nesse mundo, Vought —a megacorporação— vende os supes como celebridades, ícones políticos e salvadores públicos, enquanto encobre seus abusos, crimes e misérias privadas.
Hughie o protagonista principal entra nesse buraco depois de sofrer na pele as consequências dessa impunidade, e acaba se juntando a Butcher e ao seu grupo para tentar revelar a verdade.
A partir daí, a série coloca The Boys contra The Seven, com Homelander como grande figura de poder: um falso Superman transformado num líder narcisista, instável e cada vez mais perigoso.
A história cresce para conspirações corporativas, violência política, experiências, traumas familiares e uma guerra cada vez mais aberta contra os supes.
No fundo, não é uma trama especialmente complexa: é uma história de poder, vingança e corrupção. O que acontece é que The Boys a envolve em tanta violência, sátira, sexo grotesco e desvios narrativos que muitas vezes parece mais enrolada do que realmente é.
O que funciona, o que não funciona e onde se perde

A série começa muito forte. Sobretudo na primeira temporada e, em menor medida, na segunda.
Aí, roteiro, personagens e trama vão na mesma direção: Hughie faz sentido. Butcher tem propósito. Homelander é uma ameaça constante. Vought funciona como crítica ao poder corporativo e ao marketing mais cínico. E The Seven são uma deformação bastante inteligente do imaginário superheroico que todos temos na cabeça.
Nesse trecho inicial, a série não parece interessada apenas em chocar você, mas em contar alguma coisa. Por isso funciona tão bem.
O problema é que, à medida que as temporadas avançam, essa clareza se dilui e começa a pesar mais a necessidade de superar a brutalidade da cena anterior do que construir uma história sólida. É nesse momento que The Boys começa a ser mais vista e lembrada pelas cenas do que pelo valor do conjunto.
Herogasm me parece mais importante pelo que significou do que pelo que acrescenta narrativamente. Na televisão mainstream não se tinha exibido nada parecido, e isso tem mérito. Mas como bloco de história, é superestimado.
Em contrapartida, o caso de The Deep e do polvo é muito melhor: é ridículo, é desconfortável e, ao mesmo tempo, define perfeitamente um personagem miserável que sempre procura uma nova forma de se afundar um pouco mais.
E o mesmo acontece com Terror sonhando com Homelander. É uma loucura, sim. Mas tem aquela maldade concreta que faz The Boys ser The Boys.
Mas depois há um monte, mas um monte mesmo, de cenas violentas ou sexuais totalmente desnecessárias que estão claramente infladas pelo ruído que geram.
No início, a série usa o excesso para contar alguma coisa, mas conforme a trama avança e a surpresa se perde,começa a abusar desse tipo de recurso só para que se fale do episódio no Instagram. E é exatamente isso que acontece a partir da temporada 3.
Não é que a série fique ruim de repente; é algo progressivo, em que se perde essa sensação de que tudo o que acontece importa. Você começa a não dar importância a certas coisas que está vendo porque, na verdade, elas não têm importância.
Na temporada 4, a série chega ao fundo do poço: tramas demais, voltas demais, sensação demais de que estão esticando algo que não precisava.
Para o meu gosto, a temporada 5 se recupera muito ligeiramente porque já precisa fechar, embora a crítica em geral aponte essa como a mais fraca de toda a série. Pessoalmente, talvez porque eu queria ver o final, assisti aos episódios com mais interesse que aos da anterior.
A questão é que o problema não é The Boys ser longa, mas se tornar esticada e plana:
- Há um vírus que transforma humanos em supes.
- Outro que acaba com os supes.
- Outro vírus que os torna imortais.
- Há Soldier Boy, cuja relevância real fica no ar.
- E o filho de Homelander.
- Queen Maeve, Stormfront, Firecracker e Sage estão por ali.
- Claro, Black Noir aparece em um papel muito menos relevante do que no quadrinho.
- Há Kimiko, que fala ou não fala conforme convém.
- Ou Victoria Neuman.
- Sem esquecer A-Train e o resto de The Seven.
- Há a igreja de Homelander.
Homelander e por que recomendar The Boys

E poderia continuar, porque há muitas ideias, mas poucas acabam se desenvolvendo com a força que prometiam. Na verdade, os arcos de muitos desses personagens parecem incompletos.
Mas se há algo que The Boys mantém até o fim, é Homelander.
Antony Starr está espetacular. Mas não é só a interpretação. É a mistura de ameaça, fragilidade ridícula, narcisismo e necessidade de aprovação. Homelander consegue dar medo e pena na mesma cena. Pode parecer uma criança partida e, dois segundos depois, alguém capaz de destruir uma sala porque olharam mal para ele.
Esse ponto em que você não sabe se ele vai parabenizar alguém ou parti-lo ao meio é um dos grandes acertos da série. E não se desgasta. Quando Homelander aparece, tudo parece mais perigoso e atraente.
Com Billy Butcher acontece algo parecido. Também é um papel muito carismático, mas sinceramente acho que Homelander rende mais.
Mesmo com eles, The Boysnão é uma série indispensável para todo mundo. Mas é importante. Sobretudo porque levou a violência extrema ao mainstream.
Não estamos falando de uma raridade de uma plataforma pequena nem de uma série cult vista por quatro pessoas. Falamos de uma enorme produção do Prime Video fazendo uma série de super-heróis selvagem, incômoda e bastante pouco amigável com o espectador.
Isso mudou coisas. Demonstrou que há mercado para uma série de super-heróis com este nível de qualidade de produção e assim tão bruta. Funcionou, talvez precisamente por isso.
A partir daqui, spoilers do final de The Boys
Até aqui dá para ler sem estragar demais. A partir daqui, não.
Conto minhas impressões sobre o final da série.
O final de Homelander prometia mais
O final de Homelander fica no meio do caminho.
Gosto da ideia de ele perder os poderes. Na verdade, a cena em que ele tenta voar dando pulinhos é muito boa: ridícula, humilhante e muito The Boys. O falso deus transformado num tipo patético que não consegue sair do chão. Aí há uma imagem poderosa.
O problema é que o encerramento dele não chega a ser nem épico nem totalmente ridículo. Fica no meio. Depois de cinco temporadas construindo Homelander como uma ameaça quase mitológica, eu esperava algo maior.
Não necessariamente mais justo ou mais elegante. Mas mais contundente. A série poderia tê-lo matado de forma brutal ou épica. Ou reduzi-lo ao ridículo absoluto. As duas opções teriam funcionado. O encerramento escolhido sabe a pouco.
Butcher merecia um encerramento mais sujo
Com tudo isso, a morte que menos funciona para mim é a de Butcher.
Não tanto por não ser igual à do quadrinho — é parecida o bastante —, mas porque a série não se atreve a levar o plano do vírus até o fim.
The Boys construiu durante anos uma história sobre ódio, vingança, fanatismo e monstros que lutam contra monstros. Nesse contexto, que Butcher liberasse o vírus e acabasse com todos os supes teria sido muito mais coerente. Menos comercial, claro. Mas mais de acordo com o que a série sempre prometeu. E mais corajoso.
Na verdade, acho que este final faria muito mais sentido:
Butcher libera o vírus, matando Starlight entre outros. Por isso, e como vingança, Hughie precisa matá-lo.
Esse final teria obrigado a série a assumir que não é uma obra típica de bons e maus, mas de cinzas e má-fé. Aquilo que sempre vendeu. Na verdade, The Boys brincou muitas vezes de ser a série que não se segura, mas no encerramento, se segura.
Por que prefiro o final do quadrinho
Do quadrinho, prefiro sobretudo a surpresa de Black Noir.
Não vou contar a reviravolta de Black Noir, porque vale a pena descobri-la lendo, mas digo que eu não a vi chegando. E é exatamente isso que me falta na série: uma surpresa final que realmente bata forte.
O quadrinho é mais bruto, mais selvagem e mais irregular em outras coisas. Mas seu final é mais coerente e tem uma maldade que a série não chega a igualar. A adaptação é mais televisiva, mais comercial e mais confortável para um público amplo. Ou seja, mais domesticada.
Veredicto final
The Boys não é uma série perfeita, mas é um ponto de virada na televisão.
É uma superprodução com momentos brilhantes, um vilão extraordinário e várias cenas que já fazem parte da história recente do meio. Mas também tem demasiadas ideias pouco desenvolvidas e um final que, para o que prometia, é limpo demais.
Repito que, para mim, não supera o quadrinho, mas também não precisava fazer isso. É outra coisa: uma série que fez história, irregular, excessiva e menos redonda do que provavelmente se dirá dela com o tempo.
Mas também uma série que nos fez aproveitar algo que, no futuro, talvez venha a ser proibido. E ter participado disso é legal.
Ficha técnica
| Campo | Dado |
| Título | The Boys |
| Anos | 2019-2026 |
| Temporadas | 5 |
| Episódios | 40 |
| Criador / showrunner | Eric Kripke |
| Baseada em | O quadrinho de Garth Ennis e Darick Robertson |
| Elenco principal | Karl Urban, Jack Quaid, Antony Starr, Erin Moriarty, Laz Alonso, Tomer Capone, Karen Fukuhara, Chace Crawford e Jessie T. Usher |
| Gênero | Ação, comédia negra e sátira de super-heróis |
| País | Estados Unidos |
| Disponível em | Prime Video |
Nota
Para quem é
✔️ Se você é fã de super-heróis e quer ver uma versão brutal, adulta e deformada do gênero.✔️ Se procura uma série selvagem, incômoda e pouco habitual dentro do mainstream.
✔️ Se gosta de grandes vilões.
Para quem não é
❌ Para pessoas impressionáveis.❌ Para quem não sabe interpretar ironia.
❌ Para quem procura tramas e roteiros muito bem amarrados.
❌ Para quem só quer obras polidas, elegantes ou elogiadas pela crítica no sentido clássico.
Perguntas frequentes
The Boys é melhor que o quadrinho?
Não. É diferente. A série ganha em alcance televisivo, sátira política e construção inicial de personagens. O quadrinho ganha em brutalidade, surpresa e sensação de trama.
Vale a pena ver The Boys completa?
Sim, mas não para todo mundo. Vale a pena se você gosta de super-heróis, violência extrema e séries que brincam com o excesso.
O final de The Boys está à altura?
Mais ou menos. Fecha a história, mas o final de Homelander e, sobretudo, o de Butcher parecem menos épicos e menos sujos do que a série parecia prometer.
Onde ver The Boys?
The Boys está disponível no Prime Video.
Quantas temporadas tem The Boys?
The Boys tem cinco temporadas.

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