Vi este filme quando estreou em 2000, quando eu ainda andava no liceu. Acabo de o rever mais de vinte e cinco anos depois à espera de uma desilusão, como acontece com quase tudo aquilo de que guardas uma boa memória dessa época.
Mas não aconteceu.
A sensação que me deixou foi quase idêntica, o que mostra que não envelheceu assim tão mal como outras propostas da época.
No entanto, isso não significa que Rios Vermelhos seja um grande filme, porque não é. O argumento faz batota ao longo de todo o filme, sobretudo num final totalmente inverosímil e, no geral, podemos dizer que a resolução fica muito longe do que o arranque promete.
Mas tem algo difícil de encontrar em muitos thrillers atuais: personalidade e ambição.
Por isso consegue que, um quarto de século depois, eu continue a lembrá-lo. E que certas imagens, como os planos aéreos das montanhas nevadas, impressionem tanto como então.
Já agora, estou a falar do primeiro filme, não da sua inferior segunda parte nem da série de vídeo que não vi.
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Do que trata Rios Vermelhos
Começamos com um clássico sempre bem-vindo: duas investigações separadas que, evidentemente, não estão assim tão separadas.
Pierre Niemans, interpretado por Jean Reno, chega a uma cidade universitária de montanha para investigar um homicídio bastante brutal. Max Kerkerian, interpretado por Vincent Cassel, investiga por conta própria a profanação de uma campa noutro ponto próximo.
O filme de Mathieu Kassovitz, baseado no romance de Jean-Christophe Grangé, vai aproximando essas duas linhas até as transformar numa única investigação.
E a graça está no caminho, mais do que na chegada, porque não convém pensar demasiado em como as peças encaixam.

O melhor de Rios Vermelhos
Se o filme envelheceu relativamente bem, foi sobretudo por dois aspetos.
A atmosfera
O que eu recordava deste filme não era a trama. Era a sensação por um lado (e certas cenas por outro).
O frio. A neve. A montanha. Aquela universidade e a sua população variada.
Ao revê-lo, está tudo lá, no mesmo sítio onde o deixei.
A neve não é (só) um cenário bonito, é ambientação e atmosfera. Isola a história, arrefece-a e delimita-a. Faz-te perguntar se o que acontece naquele lugar realmente interessa a mais alguém.
Esta ambientação branca e pura mistura-se com algo muito do final dos anos noventa e princípio dos dois mil: imagem escura, violência estilizada, investigação macabra e som gerador de tensão, dando origem a uma mistura que, curiosamente, dá ao filme essa personalidade de que falava.
De facto, o filme aguenta-se melhor pela atmosfera do que pelo argumento. O que me ficou gravado não é a explicação do caso, mas o seu tom. Essa sensação de entrar num universo fechado, frio e desagradável, onde cada pista aponta para algo maior do que aquilo que acaba por ser.
Jean Reno e Vincent Cassel
Jean Reno faz de Jean Reno. Já o vimos mil vezes nesse papel, tão cinzento, de bom-mau como aqui, ou de mau-bom como em tantos outros (Missão: Impossível, Ronin…)
Presença grave, grande, de tipo que já viu tudo, que viu demasiado e já não precisa de levantar a voz, apenas olhar, para que as pessoas se afastem. Não é uma personagem especialmente complexa -aqui nenhuma o é-, mas Reno segura-a bem só com a sua presença física e por estar ali.
Cassel vai por outro lado.
Mais nervoso, mais irónico, mais elétrico, com essa energia de tipo que parece sempre prestes a fazer algo que não devia. E fá-lo ao longo do filme, várias vezes até.
A combinação funciona muito bem, com esse contraste inevitável em qualquer filme de dupla policial. Não esperes personagens com nuances, mas sim eficazes e cujos diálogos não dão vergonha alheia.
Subamos o nível e falemos de Seven
A comparação surge sozinha e é perfeita para situar o tom: crime macabro, atmosfera doentia, investigação policial, cadáveres transformados em mensagens e a sensação de que há algo mais do que um simples assassino em série.
Mas a comparação fica por aí. Não exageremos.
Seven é um filme bastante melhor em quase todos os sentidos. Mais preciso, melhor cosido, mais surpreendente, moralmente mais denso e, sobretudo, mais redondo. Não tem as fissuras que tem Rios Vermelhos.
Em Seven, a cidade, as personagens, o assassino, a ideia moral e o final fazem parte de uma máquina perfeitamente oleada. Aqui não.
Rios Vermelhos joga noutra liga. A comparação serve para orientar o tom, não para os equiparar.
O que temos em mãos é um thriller talvez mais físico e, sobretudo, mais europeu. Com neve em vez de chuva e montanha em vez de cidade. Menos profundo e mais óbvio, mas não uma cópia barata a tentar aproveitar o embalo. É algo mais.
O que menos gostei
O principal problema é evidente: a resolução.
O filme apresenta um mistério relativamente interessante e vai-o construindo mais ou menos bem durante boa parte da duração. Há ritmo, há imagens fortes, há sensação de ameaça e há uma investigação que, mesmo não sendo especialmente realista, entretém.
Mas quanto mais se aproxima da explicação, menos interessante se torna.
Algumas peças encaixam, outras rangem, e o final pede diretamente muita boa vontade para manter a suspensão da incredulidade. É totalmente inverosímil e está ali porque era preciso fechar o filme. Não lhe peças mais.
Agora, também não destrói o que veio antes.
A premissa é melhor do que o desenvolvimento, e o desenvolvimento é melhor do que a conclusão. Mas o caminho continua suficientemente divertido para que o golpe final não faça cair o filme inteiro.
Veredicto
Rios Vermelhos faz batota e não é um filme redondo. Mas tem uma atmosfera estimável, um tom correto e planos para emoldurar.
Por isso não envelheceu assim tão mal, apesar de ser fruto do seu tempo. É pena que o final não acompanhe, porque pesa num conjunto mais do que aceitável.
De qualquer forma, é um thriller divertido e que não te vai dececionar se abrires o Prime Video sem grandes expectativas num domingo à tarde, agora que não há futebol antes do Mundial.
É o que é e cumpre o seu objetivo. Às vezes, não é preciso mais.
| Campo | Dado |
|---|---|
| Título | Rios Vermelhos |
| Título original | Les Rivières pourpres |
| Ano | 2000 |
| Duração | aprox. 105 minutos |
| Realizador | Mathieu Kassovitz |
| Elenco principal | Jean Reno, Vincent Cassel, Nadia Farès, Dominique Sanda, Karim Belkhadra |
| Género | Thriller / policial |
| País | França |
| Disponível em | Prime Video, fuboTV, Atresplayer, Tivify e Prime Video com anúncios, segundo JustWatch Espanha a 7 de junho de 2026. |
Nota
Para quem é
✔️ Para quem procura um thriller criminal sombrio e atmosférico.✔️ Para quem gosta de investigações policiais macabras.
✔️ Para fãs de Jean Reno e Vincent Cassel.
✔️ Para quem espera um filme ao estilo de Seven.
Para quem não é
❌ Para quem espera um filme ao nível de Seven.❌ Para quem procura uma investigação policial realista.
❌ Para quem precisa de um mistério perfeitamente alinhavado e verosímil.
Perguntas frequentes
Vale a pena ver Rios Vermelhos hoje?
Sim, se gostas de thrillers sombrios, com atmosfera e uma encenação forte. Não é perfeito, mas continua muito divertido.
Rios Vermelhos parece-se com Seven?
Tem pontos em comum: crime macabro, investigação policial, atmosfera doentia e uma estética muito marcada. MasSevené um filme bastante melhor. A comparação serve para orientar o tom, não para os equiparar.
Esta crítica tem spoilers?
Não. A crítica comenta o tom, os pontos fortes e os problemas do final, mas sem revelar a resolução do mistério.
Quem protagoniza Rios Vermelhos?
É protagonizado por Jean Reno e Vincent Cassel, acompanhados por Nadia Farès, Dominique Sanda e Karim Belkhadra.
Onde ver Rios Vermelhos?
Segundo JustWatch Espanha, a 7 de junho de 2026 está disponível no Prime Video, fuboTV, Atresplayer, Tivify e Prime Video com anúncios. Como sempre no streaming, convém verificar antes de ver porque os catálogos mudam.
O final de Rios Vermelhos funciona?
Funciona como fecho de entretenimento, mas não como resolução especialmente credível. É totalmente inverosímil, embora não invalide o filme porque o caminho até lá compensa.


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