Jack Ryan está entre nós há várias décadas, mudando de rosto sem abandonar seu posto na CIA.
O personagem criado por Tom Clancy para seus romances foi interpretado no cinema por Alec Baldwin, Harrison Ford, Ben Affleck e Chris Pine, com resultados diferentes, embora o saldo geral seja bom.
De todos eles, Harrison Ford provavelmente ainda é o ator que mais gente associa ao personagem, graças a Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato.
Até agora.
Porque a Amazon resolveu apostar alto e montou uma grande série de quatro temporadas e, por enquanto, mais um filme.
Tanto a série quanto o filme são protagonizados por John Krasinski, conhecido sobretudo por The Office, embora já tivesse mostrado em Um Lugar Silencioso que também funcionava fora da comédia.
O resultado é uma série de ação e espionagem muito fácil de assistir, com uma produção magnífica, bons coadjuvantes e viagens, perseguições e conspirações suficientes para manter você entretido durante as quatro temporadas.
Ela tem, porém, dois problemas importantes que a impedem de se tornar uma série realmente excelente. Vou explicar os motivos.
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O enredo da série Jack Ryan
Jack Ryan começa a série como analista financeiro da CIA.
Seu trabalho consiste em estudar movimentações de dinheiro e detectar possíveis ameaças a partir de um escritório, mas ele tem uma facilidade especial para encontrar conexões que ninguém mais parece enxergar.
Como você pode imaginar, ele não demora muito para trocar o computador pelas operações em campo.
A partir daí, cada temporada apresenta uma conspiração internacional diferente, embora todas mantenham uma estrutura parecida: Jack descobre algo preocupante, tenta convencer seus superiores e acaba viajando pelo mundo para evitar uma catástrofe.
Entrando em mais detalhes, a primeira temporada começa com transferências bancárias suspeitas que levam a uma organização terrorista atuante entre o Oriente Médio, a Europa e os Estados Unidos.
Na segunda, Jack viaja para a Venezuela para investigar uma operação relacionada a armas e acaba envolvido em uma trama política e militar em torno do governo do país.
A terceira gira em torno de um plano que pretende provocar uma guerra e recuperar parte da influência do antigo império soviético.
Por fim, a quarta temporada leva Ryan a investigar uma possível conexão entre o narcotráfico sul-americano e o terrorismo asiático, fortalecida pela corrupção interna.
As temporadas são independentes quanto às ameaças principais, mas os personagens e suas relações evoluem. Por isso, vale a pena vê-las na ordem, embora não seja preciso memorizar cada nome, governo ou organização que aparece.

O melhor de Jack Ryan
Com a ideia da série em mente, vamos ao que ela oferece de melhor.
É uma série muito divertida
A maior virtude de Jack Ryan é a enorme facilidade com que se deixa assistir.
Os episódios têm ritmo, as tramas são entendidas sem esforço ou exercício de memória e quase sempre há uma operação, uma perseguição ou uma nova descoberta empurrando a história adiante. Algumas temporadas funcionam melhor que outras, mas, no geral, é fácil dar o play e perceber depois que você viu dois ou três episódios seguidos.
Além disso, é puro entretenimento no bom sentido da palavra: não tenta explicar a geopolítica mundial, apenas o necessário para acompanhar a trama. Isso limita a profundidade de alguns arcos, como veremos depois, mas também torna a série muito acessível.
Caso você esteja se perguntando, não é preciso ter lido os romances de Tom Clancy nem visto os filmes anteriores para aproveitá-la por completo, pois esta versão constrói seu próprio Jack Ryan do zero.
Uma produção de alto nível
A série se desloca constantemente entre cidades, países e cenários muito diferentes.
Há operações militares, embaixadas, reuniões políticas, áreas rurais, grandes capitais e cenas de ação com uma ambição mais próxima do cinema comercial do que da televisão tradicional.
Na verdade, em algumas ocasiões me veio à cabeça esse contraste brutal ao comparar séries espanholas como Los Serrano ou El Comisario com o que eu estava vendo na tela, e me surpreendia a enorme diferença, embora todas fossem produções para a televisão.
Aqui você encontra locações externas magníficas e muito bem aproveitadas. A série transmite uma sensação de viagem e consegue dar a cada temporada uma identidade geográfica clara.
Há, porém, um detalhe — muito comum nas produções atuais, por sinal — que não me convence totalmente: o uso de um filtro cinza bastante evidente que dessatura as cores e uniformiza um pouco os cenários.
Não chega a estragar a fotografia, mas acho um pouco excessivo e artificial.
E isso apesar de a qualidade de imagem da série no Prime Video ser excelente. Em 4K, ela se destaca especialmente nas locações, paisagens e iluminação de uma produção que gastou dinheiro e gastou bem.
James Greer e uma equipe principal muito carismática
James Greer é o melhor personagem da série. Sempre que aparece, a história fica mais interessante.
Wendell Pierce, o enorme ator que lhe dá vida, transmite autoridade e presença sem precisar de cenas de ação para impor respeito. Greer pode ser mentor, superior, companheiro ou problema para Jack, dependendo do momento, e funciona muito bem em todos esses papéis.
Ele também parece um personagem mais crível que o protagonista. Erra, tem limitações físicas, carrega problemas e sabe que trabalhar com inteligência muitas vezes significa escolher entre opções cinzentas.
Logo abaixo dele está Mike November, interpretado por Michael Kelly. O personagem não aparece desde o início, mas logo se torna uma peça importante da equipe.
Kelly também oferece um contraponto cômico bem inserido em suas primeiras aparições. Mike November tem experiência, contatos e uma capacidade especial de aceitar situações absurdas sem perder o senso de humor. Esse registro é um pouco exagerado na parte final da série, mas o personagem continua carismático.
Também é curioso ver Michael Kelly em um papel tão distante de Doug Stamper, o personagem sombrio e quase fúnebre que interpretava em House of Cards.
O restante do grupo também ajuda a série a funcionar. Jack pode ser o protagonista, mas Greer, November, Elizabeth Wright — a chefona durante algum tempo — e os diferentes agentes que os acompanham em cada temporada dão variedade às operações e evitam que todo o peso recaia sobre o bom e velho Jack.
Assim, ele “só” resolve 90% do problema.
Um elenco excelente e carismático.

O pior de Jack Ryan
Eu disse antes que a série, embora não seja ruim, tem coisas de que não gostei. São estas:
John Krasinski não acaba de me convencer como Jack Ryan
John Krasinski atua bem. O problema é que nunca consegui enxergá-lo totalmente como Jack Ryan.
Ele tem uma cara de bom moço exagerada e mantém um ar idealista demais, difícil de associar a alguém que passou por guerras, atentados, traições, torturas e todo tipo de operação secreta.
Talvez parte do problema seja física ou talvez seja difícil separar o ator de outros personagens, mas ele nem sempre transmite o desgaste que Ryan deveria ter acumulado depois de tudo o que vive.
A série tenta apresentá-lo como um homem comum que preferiria trabalhar em um escritório, embora toda temporada precise provar que ele também é um agente de campo extraordinário. Ele corre, atira, luta, pilota, desarma bombas, sobrevive e toma decisões sob pressão melhor do que quase todos ao seu redor.
Krasinski entrega o que o roteiro pede, mas a combinação entre ator e personagem nunca termina de me convencer.
Um protagonista perfeito demais em um mundo favorável demais
Além dessa cara de bom moço que não convence totalmente em um personagem como Jack Ryan, ele é bom demais em tudo.
É inteligente demais, habilidoso demais em qualquer tarefa e correto demais em suas decisões.
Quase sempre descobre a ameaça antes dos outros, costuma ter razão quando discute com seus superiores e mantém uma bússola moral praticamente intacta. Coisas ruins acontecem com ele, mas quase não há fraquezas que realmente condicionem suas decisões ou o levem a cometer erros importantes.
Isso reduz a tensão, porque você sabe que Jack encontrará uma solução mesmo quando a situação parece complicada.
E claro, se à incrível competência de Jack Ryan em tudo somamos o fato de que muitos soldados inimigos atiram pior que os stormtroopers de Star Wars, fica difícil não perder a suspensão da descrença.
É uma prática comum no cinema de ação, mas aqui se repete tanto que aumenta a sensação de assistir a uma aventura mais próxima de James Bond do que de uma operação de inteligência minimamente realista.

Uma visão política simples demais
E, se Jack é idealista e perfeito, toda a ideologia política que cerca a série é ainda mais.
Os mocinhos são muito bons — quase todos — e os vilões são muito maus — todos.
Jack Ryan fala de terrorismo, corrupção, golpes de Estado, tráfico de armas, narcotráfico e operações clandestinas, mas quase nunca questiona com dureza suficiente o papel dos Estados Unidos.
A CIA comete erros e há pessoas corruptas dentro do sistema. No entanto, a solução costuma depender de um grupo de agentes honestos que limpa a instituição por dentro. O problema são sempre algumas pessoas, maçãs podres, nunca o sistema em geral.
Isso fica especialmente evidente na última temporada, cuja trama oferecia uma ótima oportunidade para ser mais crítica com a política americana e as atividades de suas agências, mas a série não se aprofunda de verdade.
Também não ajuda o fato de governos e organizações estrangeiras serem frequentemente apresentados de forma bem mais simples que os personagens americanos. Como eu disse, são apenas vilões muito maus com os quais você jamais sentiria a menor empatia.
Veredicto: vale a pena assistir a Jack Ryan?
Jack Ryan é recomendável como entretenimento. Tem bom ritmo, ação, locações externas magníficas e uma equipe principal muito carismática.
O problema surge se você tentar assisti-la como uma série de espionagem ou política. Aí, a decepção é certa.
Não espere a ambiguidade moral e o desgaste pessoal de The Americans, os agentes cheios de defeitos de Slow Horses nem a espionagem fria, paciente e desconfiada de O Espião que Sabia Demais.
Esta série joga outro jogo. Embora Jack seja, em princípio, analista, ela está mais próxima de James Bond ou de Missão: Impossível, com ameaças mundiais, heróis extraordinariamente capazes e operações espetaculares em que a ação importa muito mais que a credibilidade.
Levando isso em conta, funciona. Entretém durante quatro temporadas e é bem feita o suficiente para que você perdoe muitos de seus exageros.
Você só precisa aceitar que Jack Ryan é o melhor analista da CIA e, ao mesmo tempo, seu melhor agente de campo, vivendo em um mundo onde os mocinhos sempre atiram melhor.
Ficha técnica de Jack Ryan
| Campo | Informação |
| Título | Jack Ryan de Tom Clancy |
| Título original | Tom Clancy’s Jack Ryan |
| Anos de exibição | 2018–2023 |
| Temporadas | 4 |
| Episódios | 30 |
| Criadores | Carlton Cuse e Graham Roland |
| Elenco principal | John Krasinski, Wendell Pierce, Michael Kelly, Abbie Cornish, Betty Gabriel, Noomi Rapace, Ali Suliman e Michael Peña |
| Gênero | Ação, suspense e espionagem |
| País | Estados Unidos |
| Disponível em | Prime Video |
| Status | Finalizada |
| Nota | 3 de 5 |
Nota
Para quem é
✔️ Para quem procura uma série de ação e espionagem fácil de acompanhar.✔️ Para quem gosta de conspirações internacionais, operações militares e ameaças em grande escala.
✔️ Para quem valoriza uma produção sólida e boas locações externas.
✔️ Para quem quer uma série mais próxima de James Bond ou Missão: Impossível do que da espionagem realista.
Para quem não é
❌ Para quem busca uma análise política profunda ou especialmente crítica em relação aos Estados Unidos.❌ Para quem prefere a espionagem pausada de O Espião que Sabia Demais ou a ambiguidade de The Americans.
❌ Para quem não suporta heróis praticamente infalíveis.
Perguntas frequentes
Vale a pena assistir à série Jack Ryan?
Sim, porque é divertida, tem uma produção muito cuidadosa e bons coadjuvantes, embora o protagonista seja perfeito demais e sua visão política seja pouco crítica.
Quantas temporadas tem Jack Ryan?
A série tem quatro temporadas e um total de 30 episódios.
A série Jack Ryan já terminou?
Sim, a quarta temporada encerrou a série em 2023.
John Krasinski é um bom Jack Ryan?
Ele interpreta bem o papel, mas sua imagem de bom moço e o idealismo excessivo do personagem fazem com que nem sempre pareça crível.
Qual é o melhor personagem de Jack Ryan?
James Greer, interpretado por Wendell Pierce, é o personagem mais sólido e melhora praticamente todas as cenas em que aparece.
É preciso ler os romances de Tom Clancy?
Não, a série pode ser acompanhada perfeitamente sem ter lido os romances nem visto os filmes anteriores.
Jack Ryan é uma série política ou de ação?
Embora use conflitos políticos e operações de inteligência, está muito mais voltada para a ação e o entretenimento.
É possível assistir a Jack Ryan em 4K?
Sim, o Prime Video oferece a série em UHD, e a qualidade de imagem ajuda a aproveitar especialmente as cenas externas e as locações.

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