Disclosure Day parte de uma ideia original de Steven Spielberg, o que não surpreende absolutamente nada depois de ver o filme.
O diretor entregou a David Koepp um tratamento de 38 páginas para transformá-lo em roteiro, retomando uma colaboração que vem de Jurassic Park e Guerra dos Mundos. Desta vez, chegaram a 42 versões do roteiro, um recorde para Koepp.
A ideia nasceu depois que Spielberg leu, em 2017, relatos sobre pilotos militares norte-americanos que diziam ter visto objetos que não conseguiam identificar. Ele queria se perguntar o que aconteceria se a humanidade tivesse provas suficientes para assumir publicamente que não estamos sozinhos.
Talvez essa fosse a ideia original, mas o desenvolvimento do enredo segue claramente por outro caminho, como veremos agora.
Por outro lado, o restante da equipe também é muito reconhecível: Janusz Kamiński na fotografia e John Williams na música. Ou seja, uma equipe que colaborou em muitas obras, fazendo com que tudo pareça — e soe — familiar.
Quanto ao elenco, é de primeira linha: Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth, Eve Hewson e Colman Domingo. Pouco a comentar aqui, além de que todos estão excelentes, sobretudo Blunt, em um papel nada simples.
Enredo de Disclosure Day
A história gira em torno de Margaret Fairchild, uma meteorologista de Kansas City interpretada por Emily Blunt, e Daniel Kellner, um especialista em cibersegurança interpretado por Josh O'Connor.
Os dois acabam ligados a uma informação que Kellner quer publicar e que poderia provar que a humanidade há muito tempo que não está sozinha e que são determinadas organizações que guardam o segredo.
A partir daí, Spielberg constrói uma mistura de conspiração, perseguição e aventura entre a organização que controla o segredo e os protagonistas que fogem dela para publicar a informação.
Tudo temperado com leves doses de perguntas e respostas metafísicas -principalmente de natureza religiosa- em torno da pergunta inicial: o que aconteceria se alguém conseguisse provar de forma irrefutável ao mundo inteiro que existem extraterrestres.
Embora parta de uma premissa muito de ficção científica, a verdade é que a história segue por outro caminho. Aqui, a aventura prevalece acima de tudo. Se esperava Minority Report, não é isso que vai encontrar, pelo menos na essência.
Spielberg no seu elemento
É inegável que, quando falamos de Spielberg, falamos de cinema. Ou, pelo menos, de uma forma de entender a sétima arte. O filme é puro entretenimento e espetáculo, mas de corte clássico.
Porque esse espetáculo não tem nada a ver com câmeras lentas e montagens aceleradas, mas está a serviço da história. O diretor é um grande narrador audiovisual e, por isso, alguns elementos do filme que mencionaremos mais adiante causam estranheza.
A evolução das habilidades dos protagonistas está bem contada. Quando chega o momento de usá-las, você acredita. Não parece inverossímil.
Claro, parte da “culpa” é de uma Emily Blunt que, como dizia antes, está fantástica e sustenta boa parte do filme.
Também fica claro que o diretor domina o gênero e se apoia na experiência anterior para levar o filme adiante. As referências evidentes são E.T. e Close Encounters of the Third Kind pelo contato extraterrestre e pelo humanismo, mas há mais.
Certas ações de Margaret lembram inevitavelmente as da precog em Minority Report durante a sua fuga com Tom Cruise. O vilão, a perseguição constante e a tecnologia futurista têm ecos de Ready Player One. E o planejamento de várias cenas de ação lembra Tintim.
A trilha de John Williams reforça ainda mais essa sensação de Spielberg clássico. Sua música acompanha a aventura de forma tradicional e reconhecível.
Até aqui tudo bem, mas passemos ao que não é tão bom.

O que não gostei
Spielberg faz cinema familiar há décadas sem tratar o espectador como uma criança. Aqui, porém, as ações simplistas ou absurdas dos inimigos — comentei com minha companheira como, às vezes, eles pareciam os Stormtroopers de Star Wars— algumas reações dos protagonistas (sobretudo as de Kellner) e a falta de explicação para várias incoerências fazem com que, por momentos, pareça isso.
E, surpreendentemente, isso prejudica mais a suspensão da descrença do que os próprios extraterrestres.
Este problema é agravado pela ausência de lógica interna. Talvez exista, mas nunca fica claro para o espectador quem são estes seres, o que querem, que poderes têm e por que razão certas coisas acontecem (o “momento Sinais” é uma delas).
Fica a sensação de que os limites e os poderes mudam conforme o que a cena precisa.
Também, nessa necessidade de responder à pergunta original, surge uma componente religiosa mais curiosa do que necessária. O passado de freira de um dos personagens e a possível reação da humanidade em relação a Deus caso a existência extraterrestre fosse confirmada parecem bastante forçados.
Ainda assim, esse aspecto do filme tem um ou outro ponto interessante, como quando a freira ressalta que o homem é a maior criação de Deus “na Terra”. É uma ideia pequena, mas interessante: uma revelação assim talvez não destruísse a fé, mas a obrigasse a ampliar seu enquadramento.
Por outro lado, já no plano técnico, os animais digitais são bem ruins. Parecem feitos com a IA do ano passado, e não com CGI. Surpreende em alguém que foi capaz de recriar os dinossauros de Jurassic Park há mais de trinta anos.
Também há momentos que parecem artificiais demais, devido a uma montagem não totalmente polida. Dois exemplos: o carro acelerando de zero a cem mais rápido que Toretto antes de cair por um desfiladeiro, ou os protagonistas entrando no trem durante a fuga.
Curiosamente, tudo o que está relacionado com os extraterrestres funciona muito melhor. Talvez porque Spielberg procura aí uma aparência mais contida e realista.

Veredicto
Disclosure Day é cinema. É divertido, Emily Blunt está excelente e Spielberg ainda sabe criar espetáculo com uma história por trás.
Mas não é um filme que eu recomendaria a quase todo mundo. Está muito abaixo das obras do diretor mencionadas anteriormente (Minority Report, Ready Player One, E.T.) e, claro, longe do melhor do gênero de aventura ou da ficção científica.
Além disso, também não traz nada de especialmente original no roteiro, nas imagens ou na música.
Portanto, temos um filme que, se você assistir, não vai se arrepender; mas, se perder, também não acontece nada.
Por isso, acho que, dentro de alguns anos, poucos de nós o mencionaremos ao falar da filmografia de Spielberg. Passará despercebido entre obras colossais. É o que acontece quando se é um gigante do cinema.
Ficha técnica
| Campo | Dado |
| Título | Disclosure Day |
| Ano | 2026 |
| Duração | 145 minutos |
| Diretor | Steven Spielberg |
| Roteiro | David Koepp, a partir de uma história original de Steven Spielberg |
| Elenco principal | Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth, Eve Hewson e Colman Domingo |
| Gênero | Ficção científica / aventura / thriller |
| País | Estados Unidos |
| Música | John Williams |
| Fotografia | Janusz Kamiński |
| Nota | 3/5 |
Nota
Para quem é
✔️ Para quem gosta do Spielberg mais clássico.✔️ Para quem procura aventura familiar.
Para quem não é
❌ Para quem espera um filme de ficção científica.❌ Para quem espera um dos grandes filmes do diretor.
❌ Para quem precisa de uma lógica interna muito bem fechada.
Perguntas frequentes
Vale a pena ver Disclosure Day?
Sim, sobretudo se você gosta do Spielberg mais clássico e do seu cinema de aventuras. É divertido e bem dirigido, mas não me parece um filme imprescindível nem uma de suas melhores obras.
Disclosure Day é ficção científica?
Sim, embora para mim funcione muito melhor como filme de aventuras. A tecnologia extraterrestre e a premissa pertencem claramente à ficção científica, mas o peso está na perseguição, no espetáculo e nos personagens.
Disclosure Day tem spoilers?
Esta crítica não. Evito contar as grandes reviravoltas e os detalhes que é melhor descobrir durante o filme.
Parece com E.T. e Close Encounters of the Third Kind?
Sim. Compartilha com ambos o interesse de Spielberg pelos extraterrestres, o contato com o desconhecido e uma visão muito humanista da história.
Que outros filmes de Spielberg ele lembra?
Também me lembrou Minority Report pela fuga da protagonista, Ready Player One pelo uso de tecnologia futurista e determinadas perseguições, e Tintim pelo planejamento de algumas cenas de ação.
Emily Blunt está bem em Disclosure Day?
Sim. Emily Blunt está excelente e é um dos pontos fortes do filme.
Quem compõe a trilha sonora de Disclosure Day?
John Williams. Sua música tem um tom muito clássico e reforça bastante a sensação de estarmos diante do Spielberg mais tradicional.
Disclosure Day é um filme familiar?
Sim, embora em alguns momentos a simplificação dos inimigos, certas decisões dos personagens e algumas incoerências façam com que pareça até dirigido a um público bastante jovem.
Está entre os melhores filmes de Spielberg?
Para mim, não. Tem ofício, sentido de aventura e bons momentos, mas está longe das suas obras-primas e também não se destaca especialmente dentro da ficção científica ou do cinema de aventuras.
Que nota recebe Disclosure Day?
Dou nota 3/5. É um filme de que você pode gostar se entrar na proposta, mas não uma recomendação para quase todo mundo.

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