Parece que as produtoras de streaming ganharam gosto por isto do realismo mágico latino-americano.
Se há alguns meses a Netflix apresentou a muito interessante Cem Anos de Solidão -adaptação do romance homónimo de Gabriel García Márquez-, agora é a Amazon que adapta outro livro não menos importante.
E fá-lo com cuidado.
Temos diante de nós uma adaptação cuidada, bastante fiel ao romance de Isabel Allende, muito bem interpretada e visualmente poderosa.
Além disso, vê-se depressa, prende desde o primeiro episódio e consegue algo que não é assim tão simples: fazer-te aceitar o realismo mágico sem pensares que o guião te está a gozar.
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O enredo de A Casa dos Espíritos
Falemos um pouco da trama, que é o mais importante aqui. Sem spoilers, claro.
A Casa dos Espíritos conta a história da família Trueba ao longo de várias gerações.
No centro estão Clara, Blanca e Alba, três mulheres cujo destino é marcado pelos laços familiares, pela política, pela violência, pelos segredos, pelos amores impossíveis e por essa parte sobrenatural tão própria do género literário em que se insere.
A série arranca com uma estrutura que facilita o nosso interesse: uma voz off e a imagem de uma rapariga a carregar nas teclas de uma velha máquina de escrever contam-nos uma história familiar desde as suas origens, começando para isso com um grande flashback.
Não é preciso ter lido o romance para a acompanhar. Na verdade, uma das suas virtudes é ordenar bastante bem uma história grande, cheia de personagens, saltos temporais e tragédias.
E consegue algo mais, porque adaptar A Casa dos Espíritos não consiste apenas em “contar o que acontece”. O difícil é captar o tom do livro, um dos maiores representantes do realismo mágico latino-americano.

Um dos pilares do género
O risco de adaptar uma história assim, tão propensa a eliminar a suspensão de descrença necessária no leitor ou espectador, é que tudo pareça um pouco ridículo.
Premonições, espíritos, sinais, presenças, destinos familiares que se repetem… Se não for bem contado, corres o risco de montar uma telenovela com fantasmas. E não é o caso.
A série funciona porque se leva a sério. As personagens acreditam no que estão a viver e arrastam-te para o seu mundo particular.
Clara não parece um capricho da autora; a sua forma de estar no mundo faz parte da história de modo natural. E o mesmo acontece com o resto dos protagonistas e antagonistas: entendes as suas decisões -quase todas-, mesmo que não concordes com elas. Compreendes de onde vêm, o que os move e porque acabam por fazer o que fazem.
E, obviamente, é mais fácil empatizar com eles — incluindo Esteban Trueba — do que alguma vez foi com Succession.
Por outro lado, e como estreou tão perto da adaptação de Cem Anos de Solidão, a comparação é inevitável.
A da Netflix parece-me ganhar no visual: é mais surpreendente e mais “diferente” dos romances clássicos mais realistas europeus ou norte-americanos. Digamos que no seu universo cabem mais milagres do que neste.
A Casa dos Espíritos é mais costumbrista, mais realista —se é que esse adjetivo se pode aplicar a estas obras—e mais ancorada no familiar e no político. Não o digo como defeito; na verdade, assenta-lhe bem.
Aqui o mágico é uma porção menor e centrada sobretudo numa personagem. Convive com o quotidiano sem problema.
O melhor de A Casa dos Espíritos
A série tem vários pontos pelos quais vale a pena vê-la. Para mim, estes são os melhores.
O elenco é excelente
Diria que, embora a produção esteja muito cuidada, o melhor da série é o elenco.
Alfonso Herrera está especialmente bem como Esteban Trueba. É a personagem mais difícil, uma personagem que te pode cair mal ou bem, mas que compreendes e é, provavelmente, a que melhor atravessa todas as épocas.
A sua caracterização funciona, a sua presença impõe-se e a sua evolução física e emocional está muito bem resolvida.
Esteban Trueba é uma personagem desagradável, violenta, egoísta e tirânica, mas a série não o reduz a “o mau”. Não o perdoas, mas entendes os mecanismos internos que o movem. É um dos grandes acertos do romance e aqui mantém-se.
Também funcionam muito bem Clara, a sua mãe Nívea e Rosa. Há algo nessa primeira parte familiar que prende depressa, talvez porque as personagens têm uma identidade muito marcada desde o início.
Férula também me parece uma excelente secundária. Mostra a dor, a contenção e a tensão interna que fazem com que te afeiçoes a ela rapidamente, apesar do nome.
E entre os restantes secundários, Pancha e Pedro Segundo têm presença e importância. A série consegue fazer-te importar com eles.
Do lado dos antagonistas, Esteban García não precisa de grandes frases para gerar desconforto. O seu olhar basta. Grande acerto de casting e uma interpretação à altura.
Dito isto, tenho de assinalar que Pedro Tercero a cantar me arrancou um sorriso. Mas não pelo motivo certo: canta tão mal -sobretudo em jovem- que roça o involuntariamente cómico. Custa-me entender esta decisão de produção, já que outro ator ou uma dobragem de um cantor teriam funcionado melhor, acho eu.

Fotografia, ambientação e produção
A série vê-se muito bem. Fotografia, guarda-roupa, casas, exteriores, luz, ambientação de época… tudo está a um nível alto.
Não há sensação de produção barata. Pelo contrário. Nota-se o cuidado, o orçamento e a intenção de estar à altura do romance como adaptação. Todos os cenários -a casa, os campos, os interiores-, a roupa e as mudanças de época ajudam-nos a entrar na trama.
Não tão bonito, mas também parte da produção e da realização, está o facto de que a violência é tratada com pulso. Não se recreia nela de forma gratuita, mas também não a esconde.
Há imagens que doem: uma chapada, dentes, uma cabeça entre silvas, violações, a violência familiar implícita e a política explícita. Não são momentos cómodos, porque não deveriam sê-lo.
Prende desde o princípio
Embora sejam 8 episódios, A Casa dos Espíritos vê-se depressa. É fácil despachá-la em dois ou três dias.
O romance é muito bom e a série sabe aproveitá-lo.
E isto apesar de não ser, de todo, uma série de reviravoltas ou ação constantes. Não é disso que se trata. Mas a trama, as personagens e a montagem têm aquela qualidade de “vá, só mais um” que te faz querer ver como tudo se desenvolve.
O pior de A Casa dos Espíritos
Mas a série também tem alguns pontos que a afastam de ser uma obra imprescindível.
Demasiado correta
O principal problema de A Casa dos Espíritos é que tudo está muito cuidado, mas quase nada surpreende.
A realização é correta. A produção é correta. A adaptação é correta. O tom é correto. Mas há uma sensação de prudência, de ir com o travão de mão puxado, que a impede de subir ao patamar seguinte.
A personalidade aparece mais nas interpretações do que na encenação. E isso faz com que a série seja notável, mas não especialmente memorável.
E isto apesar de esta versão ter mais espaço para contar as coisas do que o filme clássico de 1993 protagonizado por Jeremy Irons e Meryl Streep, o que lhe permite desenvolver melhor toda a trama do livro. Provavelmente por isso é superior ao filme, mas não tenho a certeza de que não a esqueças com mais facilidade.
Não oferece momentos verdadeiramente inesquecíveis
A série tem momentos fortes, mas quando a terminas, não ficam gravadas assim tantas cenas ou imagens como seria de esperar de uma obra assim.
Há cenas duras, interpretações muito boas e uma produção cuidada, mas falta aquele golpe de personalidade que transforma uma adaptação em algo com vida própria. Ao dizê-lo, penso em Game of Thrones, , Chernobyl ou The Handmaid’s Tale.
Está muito bem feita, mas falta-lhe uma visão própria, uma ambição de transcender.

A mudança de atrizes
Outra coisa que não me acaba de convencer é a mudança de atrizes à medida que os anos avançam.
Entendo a decisão. Numa história que atravessa décadas, mudar de intérprete pode ajudar a marcar a passagem do tempo. Mas aqui nem sempre funciona.
De facto, em alguns casos gera alguma confusão, porque as versões jovens e adultas de certas personagens não se parecem o suficiente ou não transmitem a mesma continuidade emocional.
Aconteceu-me especialmente com Blanca, a filha de Clara, embora seja uma sensação geral com várias mulheres da série.
E o curioso é que a própria série demonstra que havia outra via possível com Esteban Trueba: manter o mesmo ator e trabalhar o envelhecimento com maquilhagem, caracterização e interpretação. Não digo que fosse preciso fazê-lo sempre -há demasiada diferença de idade em algumas ocasiões-, mas em alguns casos teria dado mais unidade.
Veredicto: notável, mas não excelente
A Casa dos Espíritos vale a pena.
Se gostas do romance, de Isabel Allende ou do realismo mágico, vale ainda mais a pena. Mas mesmo que não tenhas lido o livro, a série agrada.
Desde que o realismo mágico não te tire da história, tens aqui uma adaptação sólida, bem interpretada e fácil de ver.
O melhor está no elenco, na forma de sustentar o incrível através de personagens credíveis e numa produção muito cuidada. O pior está no facto de tudo parecer demasiado correto. Não falha em nada, mas também não arrisca o suficiente para deslumbrar.
É uma boa série. Uma adaptação notável. Uma versão melhor do que o filme para uma história que precisa de espaço para mostrar tudo.
Ao contrário do romance em que se baseia, é uma grande obra, mas não uma obra-prima.
Ficha técnica de A Casa dos Espíritos
| Campo | Dado |
|---|---|
| Título exato | A Casa dos Espíritos |
| Ano | 2026 |
| Duração | 8 episódios |
| Realização | Francisca Alegría e Andrés Wood |
| Elenco principal | Alfonso Herrera, Dolores Fonzi, Nicole Wallace, Fernanda Castillo, Juan Pablo Raba, Fernanda Urrejola, Rochi Hernández, Aline Küppenheim, Eduard Fernández e Maribel Verdú |
| Género oficial | Drama, romance, inquietante |
| País | Chile |
| Disponível em | Prime Video |
| Há spoilers? | Não |
| Nota | 3,5/5 |
Nota
Para quem é
✔️ Para quem quer uma adaptação cuidada e fiel do romance de Isabel Allende.✔️ Para quem gosta do realismo mágico latino-americano.
✔️ Para quem viu Cem Anos de Solidão e quer outra série parecida.
✔️ Para quem procura uma série de época bem produzida e fácil de ver em poucos dias.
Para quem não é
❌ Para quem não suporta o realismo mágico.❌ Para quem procura ritmo de thriller.
Perguntas frequentes
Vale a pena ver A Casa dos Espíritos?
Sim. Vale a pena em geral, e ainda mais se gostas de Isabel Allende, do romance original ou do realismo mágico. É uma adaptação notável, bem interpretada e muito cuidada.
A série é fiel ao romance?
Sim, é uma adaptação bastante fiel e respeitosa da obra de Isabel Allende. Não substitui o livro, mas capta bem o seu espírito, a sua estrutura familiar e a sua mistura de política, memória e realismo mágico.
É preciso ter lido o romance?
Não. A série entende-se perfeitamente sem ter lido o romance. Ainda assim, se já conheces o livro, provavelmente apreciarás melhor algumas decisões de adaptação e o espaço que o formato série dá à história.
Onde ver A Casa dos Espíritos?
A Casa dos Espíritos está disponível no Prime Video.
Quantos episódios tem A Casa dos Espíritos?
A primeira temporada tem 8 episódios.
Parece-se com Cem Anos de Solidão?
Pode comparar-se porque ambas são adaptações recentes de grandes obras do realismo mágico latino-americano. Cem Anos de Solidão parece-me mais visual e surpreendente; A Casa dos Espíritos é mais costumbrista, mais familiar e mais ancorada na realidade política.
Esta crítica tem spoilers?
Não. A crítica comenta o tom, as personagens e alguns aspetos gerais da adaptação, mas evita revelar as grandes reviravoltas da história.
Que nota tem A Casa dos Espíritos?
A minha nota é 3,5 em 5. É uma série notável, mas não chega ao excelente porque lhe falta personalidade e não deixa tantos momentos inesquecíveis como poderia.

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