Nos dias 19 e 20 de novembro de 2024, aconteceu em Málaga a Upscale Conf 2024, um dos eventos de IA mais impressionantes de que me lembro em todo o mundo.
Era de esperar, considerando os palestrantes e as empresas de onde vinham (Freepik, Google, Microsoft, GitHub, ElevenLabs, Magnific AI, Founderz…).
Além de rever rostos conhecidos da elite tecnológica de Málaga, o evento me ajudou a conhecer gente nova. Afinal, não é todo dia que você tem a oportunidade de conversar com um jornalista da Business Insider, uma das minhas newsletters diárias favoritas.
Também serviu para outra coisa: ver o estado atual da IA e entender o impacto global que ela JÁ está causando nas indústrias criativas.
E, de fato, é disso que trata este post: fazer um panorama das palestras do evento e explicar em que ponto já estamos. E adianto que estamos mais avançados do que eu imaginava antes da conferência.
Mas, antes de entrar no assunto, preciso dizer que fiquei agradavelmente surpreso com as instalações da SOHRLIN Andalucía, muito perto de outro espaço bacana para eventos, La Térmica, mais antigo e também mais conhecido.
Dá para perceber que Antonio Banderas está por trás do projeto, porque o nível audiovisual e o conforto das instalações eram muito altos.
As mais de 500 pessoas que participaram do evento estavam muito confortáveis e eu diria que ocupamos apenas metade da capacidade.
Bom, apresentações feitas, vamos ao que interessa: vou revisar uma por uma todas as palestras e comentar o que eu aproveitei de cada uma.
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Martin LeBlanc – Freepik
Começamos com força.
De todas, esta foi a palestra de que mais gostei.
Fiz anotações como um louco, além de não parar de tirar fotos e gravar vídeos.
Por quê?
Porque Martin, chefe de produto da Freepik, explicou até onde a IA pode chegar e montou todo o material necessário em torno de um projeto imaginário de energia renovável chamado Solar Nomad.
Quando digo tudo, quero dizer:
#1. Web design
Seguindo este fluxo:
- Sketch to Image (perfeito para começar quando já temos algo em mente).
- Reimagine (variações, alterando algum ponto específico).
- Expand (ampliar as margens).
- Retouch (retocar elementos específicos, como no Photoshop, mas de forma fácil).
- Scale (aumentar a resolução e corrigir mãos no processo).
Martin mostrou como criar em minutos uma landing page — com hero banner e copy — para o projeto.

Obviamente, todas as ferramentas citadas acima, usadas por ele na demonstração, são da Freepik, caso você estivesse se perguntando.
Mas, se preferir usar outras, o processo seria o mesmo.
Isso foi bom, mas não chegava nem perto do que vinha a seguir…
#2. Anúncio em vídeo
Foi aqui que todos nós que vimos a demonstração ficamos de queixo caído. Este foi o resultado final, gerado inteiramente com IA:
Para chegar a ele, Martin seguiu este fluxo de trabalho:
Storyboard
A IA não faz isso (pelo menos a da Freepik… ainda não).
Nós fornecemos. E sim, você pode usar o ChatGPT para ajudar a construí-lo.
LoRAs
O que a IA da Freepik consegue fazer é manter a coerência ao longo dos diferentes clipes necessários:

Para um vídeo — publicitário ou de qualquer outro tipo — funcionar, é fundamental manter sempre a mesma pessoa ou personagem.
Para conseguir isso, o processo é:
- Criamos ou enviamos diferentes imagens da mesma pessoa
- Escrevemos prompts para situações diferentes.
- O resultado é uma imagem para cada clipe, todas coerentes entre si.
- Por fim, montamos tudo em qualquer editor de vídeo. Por enquanto, a IA não faz isso.
Bom, ainda falta mais uma dica.
E ela é fundamental.
Image to Video
Além da ajuda para inserir e melhorar os prompts da ferramenta, uma das chaves para gerar vídeos de alta qualidade é enviar imagens de alta qualidade.
Ou seja, com boa resolução.
Para isso, fazemos o upscaling da imagem antes de gerar o vídeo. Foi para isso, entre outras coisas, que eles compraram a Magnific.AI na época 😉

Embora não dê para perceber na imagem, a diferença de qualidade entre o vídeo gerado com uma e com a outra é evidente.
Áudio para o vídeo
Nesse ponto temos duas partes:
- A locução.
- A música de fundo.
A Freepik tem ferramentas para as duas:
Freepik Tunes
Para gerar a voz, basta enviar o texto e escolher a voz que melhor se adapta.
Se você já usou ElevenLabs, conhece o processo.
Video Match
Depois de fazer a locução, é hora de adicionar a música de fundo.
Para isso, envio o vídeo e a ferramenta me oferece diferentes opções de música e, além disso, integra a voz.
O resultado é simplesmente brutal.
Tempo e recursos do processo
Martin contou que todo o vídeo do anúncio levou 10 horas.
Tudo isso feito por uma única pessoa..
Não sei se você já participou de uma filmagem externa, mas garanto que não é nada rápido e que só montar e desmontar os equipamentos já consome um bom tempo.
E isso é apenas o resultado final: antes é preciso procurar e definir as locações e fazer um casting de atores.
Ou seja, o resultado é impressionante e coloca ao alcance das pequenas e médias empresas a criação de anúncios com qualidade semelhante à das grandes marcas.
Não estimei o custo em euros das ferramentas da Freepik necessárias para fazer tudo isso, mas espero que seja da ordem de 100 a 1.000 vezes menor do que filmar um anúncio da forma “normal”.
Repito: entre 100 e 1.000 vezes menos do que um daqueles anúncios que você engole antes de qualquer filme no Prime Video.
Bom, terminado o resumo desta palestra, que foi o que mais me impressionou na conferência e por isso quis contar em detalhes, vou resumir o restante do evento focando nos pontos principais de cada apresentação.
Nick Coronges – R/GA
Nick mostrou exemplos de como a tecnologia faz as empresas mudarem de direção. A Freepik que o diga: em tempo recorde, teve de passar de marketplace de imagens para plataforma de IA.
Ele também destacou como usar IA para marcas. Precisamos repensar nosso pipeline criativo.

Graças à IA, hoje podemos continuar fazendo o que já fazemos, mas fazer melhor.
Mas Nick sugere inverter esse enfoque e pensar no que podemos fazer com IA que antes não podíamos.
Ele deu como exemplo o rebranding do Android realizado pela agência este ano e como a IA os ajudou a criar infinitas variações do robô depois de treinar o modelo.
Isso ilustra o que ele considera uma agência de branding nativa em IA..
Hugo Barbera – HumAInmade
Hugo é criativo.
Isso fica claro desde o primeiro minuto. Ele conta sua experiência com IA, que não começou agora: trabalha com ela há vários anos. E isso aparece em suas criações:
Além disso, no mercado de luxo, em que sua agência se concentra, suas criações futuristas — para chamar de algum jeito — sempre contam uma história. E essa é a chave para que funcionem.
Aqui deixo alguns exemplos:


Pessoalmente, elas me lembravam ou evocavam bastante os quadrinhos de Métal Hurlant que eu lia há quase 30 anos e que, felizmente, voltaram à vida graças ao Kickstarter, mas isso é outro assunto.
Laia Grassi
A palestra de Laia teve muito conteúdo.
Para começar, porque ela apontou a enorme quantidade de áreas afetadas pela chegada da IA, muito mais do que parece à primeira vista.
Claro, ela apresentou números sobre os empregos estimados para 2025 relacionados à IA, em ambos os sentidos, e eles eram impressionantes:
- 97 milhões de novos empregos.
- 85 milhões de empregos substituídos pela IA.
- Saldo positivo de 12 milhões de empregos.
E isso apenas em 2025.
Pense de que lado você quer estar… e aja.
Depois de contextualizar, ela começou a explicar as diferenças entre como a criatividade é gerida pela mente humana e como a IA faz isso.
Também mostrou alguns casos reais de campanhas que usam IA.
O primeiro, para recriar uma sessão de fotos em cenários idílicos para uma empresa que não conseguia pagar os custos de fazer isso de verdade:
É semelhante ao que contei sobre o anúncio da primeira palestra, mas aplicado a uma sessão de fotos.
O outro exemplo foram anúncios para uma loja virtual, nos quais o produto era misturado a objetos gerados por inteligência artificial — desculpe a qualidade do vídeo, mas precisei usar zoom:
E, para encerrar, ela usou uma ótima frase que, acho, era de Steve Jobs:
“Criatividade é a capacidade de ver conexões onde os outros não veem, de romper padrões estabelecidos e gerar novas soluções.”
Pau García Mila – Founderz
Pau fez uma palestra muito divertida, cheia de piadas, mas também com muito conteúdo.
Assim, pudemos ver ao vivo o famoso desafio de criar uma startup em 15 minutos — cronometrados — com IA.
Este foi o fluxo:
- Ele pediu ao Copilot que começasse pelo plano de negócios da startup.
- Depois, o detalhamento do plano financeiro em tabelas.
- Os textos para redes sociais.
- Os vídeos — talvez a parte menos bem resolvida, mas ele tinha apenas 15 minutos para tudo.
- Uma apresentação para investidores.
- E uma landing page
A ideia por trás de tudo isso não era criar uma startup que funcionasse de primeira, mas nos fazer entender a rapidez com que é possível montar uma.
E mostrar que a IA permite falhar “faster and cheaper”, por isso podemos colocar muitas — muitíssimas — ideias em prática em pouquíssimo tempo e testá-las para ver quais podem funcionar, seguindo em frente com essas.
É a mesma metodologia dos investidores early stage de startups, mas aplicada à própria criação da empresa.
Se você é inquieto e curioso, a ideia é muito, muito atraente…
Além da palestra, Pau também moderou a competição de startups baseadas em IA realizada no evento.
Quatro tinham sido selecionadas:
- Journo: conteúdo para jornalistas com IA, para SEO, redes sociais…
- Brandfy: criar uma marca inteira com IA.
- ConsistentCharacter: narrativa visual.
- PiktID: criar modelos para ensaios fotográficos.
A vencedora foi a última, caso você queira dar uma olhada.
George Eid – AREA 17
Entrando em um terreno mais metafísico, George explicou com exemplos por que as histórias funcionam e quais regras os grandes sucessos seguem.
No caso da IA, podemos associá-la ao poder e à magia.
Justin Hackney – ElevenLabs
Sinceramente, como sou fã da ferramenta, eu tinha expectativas muito altas para esta palestra. Mas a verdade é que ela pode ser resumida em uma frase:
“As histórias que contamos moldam a nossa realidade.”
Nerea Luis
Nerea tinha a difícil tarefa de nos manter acordados e atentos depois do almoço. E conseguiu.
Ela se concentrou nos quatro casos de uso em que a IA pode nos ajudar a comunicar mais rápido e de forma mais inteligente. Para ela, são:
- Personalização de UX.
- Copywriting e conteúdo comercial.
- Teste de interfaces conversacionais (chatbots e QA).
- Prototipagem e conceituação.
Ela deu o exemplo da Netflix: como os algoritmos redefiniram o uso dos aplicativos de vídeo, fazendo com que quase não usemos a busca — embora algum geek como eu ainda a use de vez em quando.
Também recomendou dar uma chance ao NotebookLM, porque, para ela, é o próximo passo depois do ChatGPT: permite maior rastreabilidade do conteúdo graças às “bubbles”, uma espécie de dica flutuante que mostra mais informações quando você passa o cursor por cima.
Mesa-redonda, moderador: Andrés Torrubia – Medbravo
Em seguida, tivemos uma mesa-redonda que explorou o estado atual da IA na geração de vídeo.

Estas foram as principais ideias apresentadas por cada participante:
- Stacie Chan: ao comentar os oito segundos de vídeo que seu aplicativo permite criar, ela dizia que as limitações são boas para a criatividade, porque nos obrigam a pensar melhor. E não poderia concordar mais, pelo menos até certo ponto. Basta ver as “versões estendidas” ou “director’s cut” de qualquer filme de Ridley Scott para perceber como faz bem ter um produtor que corte suas asas.
- Mike Ramos: esse produtor audiovisual comentou que é preciso estar consciente das limitações e mudar a forma de pensar e criar antes de usar uma ferramenta. Talvez você não consiga fazer o mesmo de antes, mas pode explorar coisas novas.
- Javi López: por fim, o cofundador da Magnific.AI disse que, ao criar vídeo com IA, dedica muito tempo à pesquisa e aos testes até conseguir algo decente. Também destacou a consistência como fator essencial para começar a usar IA em vídeos com mais de alguns segundos ou minutos. Sem ela, é impossível.
Elizabeth Laraki – ex-Google
Ela começou mostrando como podemos aprender a criar prompts:
- Tentativa e erro.
- Observando o feedback oferecido pelas ferramentas.
- Prompts compartilhados por outros usuários em fóruns e portais (“experimente isto…”).
- Prompting reverso: em plataformas de IA como as de criação de imagens, nas quais podemos ver o prompt que gerou uma imagem para reproduzir o resultado.
Com isso, ela chegou à ordem dos elementos em um prompt para criar imagens profissionais, que é esta:
Aqui está em texto:
[Subject] + [Action/Pose] + [Setting/Environment] + [Lighting] + [Camera Angle] + [Style] + [Atmosphere] + [Technical Specifications] + [Aspect Ratio]
Não sei se você conhecia essa estrutura — eu não —, então vou guardá-la para testar agora.
David Jensenius – GitHub
Por fim, não consegui entender muito bem o sentido da palestra. Alguns exemplos legais, mas pouco aplicáveis a projetos reais.
Ou talvez eu não tenha sabido valorizá-la, em parte por causa do que vou contar a seguir.
Conclusões
E foi isso que a Upscale Conf 2024 nos trouxe.
Ou melhor, foi ao que consegui assistir antes que um resfriado mortal me mandasse para casa e me deixasse dois dias inteiros na cama.
Isso significa que, embora eu não tenha conseguido participar das palestras do segundo dia, acredito que as que mencionei aqui dão uma ótima ideia de onde estamos na criação com IA e dos rumos que as coisas devem tomar em breve.
Como curiosidade — que também serve de conclusão —, eu estava assistindo às palestras com o diretor da maior agência de comunicação e publicidade de Málaga. Ele observava o que estava chegando com uma mistura de alegria e preocupação nos olhos..
Para bom entendedor, poucas palavras bastam.
E não é para menos, vendo o que está vindo para cima de todos nós.
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