Com Blacksad aconteceu uma coisa comigo. Quando apareceu nas prateleiras de todas as lojas de quadrinhos lá pelos anos 2000, seu ar infantilizado não me chamou muita atenção.
Na época, com 17 anos, eu preferia outro tipo de obra mais “adulta”.
No entanto, com a bagagem que os anos dão e vendo-o de novo na biblioteca do meu bairro, resolvi ler a saga completa. E, sinceramente, não me arrependo nem um pouco.
Blacksad é uma dessas obras em que basta abrir uma página para entender sua popularidade. O desenho de Juanjo Guarnido e a cor em aquarela são tão bons que por si só já justificam ler a saga, mesmo que o gênero noir não seja o que você mais curte.
Além disso, esses animais com corpos humanos continuam sendo algo diferente e chamativo, por mais que seja um recurso já usado muitas vezes.
A sensação que você tem ao folhear qualquer um de seus volumes é a de estar diante de um Disney para adultos. E isso me parece bastante atraente.

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Noir com aparência de desenho animado
A saga acompanha John Blacksad, um detetive particular com forma de gato (preto, combinando com o sobrenome) que circula por um mundo de animais antropomórficos inspirado no noir americano clássico.
Há crime, violência, racismo, política, abuso de poder, segredos e personagens cinzentos. Todos eles, ou quase todos.
Apesar de estarmos falando de animais com corpos humanoides, a obra se leva a sério. Há humor em doses leves, mas não há sensação de paródia.
Por isso é importante não se confundir. Blacksad não é um quadrinho infantil. Seu mundo é bastante sujo, seus conflitos são adultos e muitas de suas histórias têm um ponto amargo. Tudo muito próprio do gênero em que a obra se enquadra.
Animais antropomórficos: não são um enfeite
Uma das melhores decisões da saga é que os animais não estão ali apenas para chamar atenção. Eles ajudam a entender os personagens quase antes de eles falarem.
Um personagem pode parecer perigoso por sua espécie, miserável por seu gesto, elegante por sua postura ou ridículo pelo contraste entre o que é e como tenta se comportar. Guarnido trabalha isso com muitíssimo talento. Cada design, cada rosto, cada expressão e cada corpo sugerem alguma coisa.
Isso, junto com os diálogos, faz com que os personagens principais sejam muito carismáticos.
Sobretudo, claro, o protagonista. John Blacksad funciona muito bem porque tem essa mistura de detetive clássico, durão cansado e personagem reconhecível à primeira vista. Um Humphrey Bogart em sua juventude e plenitude.
Os coadjuvantes, como Weekly, também são tridimensionais, sobretudo os que aparecem em vários volumes. E até os que participam apenas de algum volume não são meros extras a serviço do protagonista, mas personagens bem desenhados e bem executados.
O universo criado com esses animais, as tramas noir e o desenho e a ambientação da obra é único e dá ao conjunto uma identidade muito fácil de reconhecer.

Os sete volumes principais de Blacksad (por enquanto)
Esta resenha se concentra nos sete álbuns principais publicados até agora. Não entro em Weekly, o spin-off dedicado ao repórter que às vezes acompanha nosso gato. Neste artigo me concentro em avaliar a saga principal.
Assim, cada volume apresenta um caso diferente. Há histórias mais políticas, outras mais pessoais e outras mais próximas do thriller ou do noir clássico.
Aqui estão seus títulos:
- Volume 1: Algures entre as sombras (2000)
- Volume 2: Arctic-Nation (2003)
- Volume 3: Alma Vermelha (2005)
- Volume 4: O Inferno, o silêncio (2010)
- Volume 5: Amarillo (2013)
- Volume 6: Então, tudo cai – Primeira parte (2021)
- Volume 7: Então, tudo cai – Segunda parte (2023)
Todos têm uma extensão parecida, entre 48 e 60 páginas.
Em geral, a estrutura costuma se mover por terrenos conhecidos: Blacksad chega a um lugar ou situação, investiga, se mete onde não deve e acaba encontrando verdades muito piores do que pareciam.
Não é preciso contar muito mais porque Blacksad se aproveita melhor entrando em cada caso com pouca informação prévia, deixando-se levar pelo ambiente, pelos personagens e por seus diálogos. É uma obra que se lê muito, muito rápido.
O melhor de Blacksad
Vamos aos motivos de sua popularidade.
O desenho e a aquarela de Guarnido
Este é o grande motivo para ler Blacksad. O desenho de Guarnido é impressionante, não só pelo nível técnico, mas por como usa a composição, a cor, as luzes, as sombras e as expressões.
A aquarela dá à saga uma textura muito especial. Tudo tem corpo e atmosfera. Há páginas que você poderia observar mesmo sem estar acompanhando a história. Isso, em um meio como os quadrinhos, em que a parte visual é metade da obra, é fundamental.
Além disso, o desenho não se limita a decorar: ele marca o tom de uma cena, deixa claro quem domina a conversa, quem esconde algo ou o que nosso protagonista pensa sem precisar explicar em texto.
A expressividade dos personagens
Na verdade, outro ponto fortíssimo é a expressividade.
Nota-se muito a capacidade e o trabalho de animação por trás de cada desenho. Os personagens não são apenas bem desenhados: eles atuam.
Um olhar de lado, uma mandíbula contraída ou uma mordida nos lábios dizem muitíssimo. Por isso a comparação com a Disney é tão adequada.
O tom adulto apesar da aparência
O contraste entre o que parece e o que é também funciona muito bem. Blacksad entra fácil pelo desenho, mas as convenções do gênero são as que são. E não as suaviza para torná-las mais simples e adequá-las a um público mais jovem.
Por isso eu não daria a uma criança, apesar do atrativo de seus quadros. É um quadrinho adulto com aparência de desenho animado, e é bom ter isso claro para não ter surpresas.

O pior de Blacksad
Apesar de ser uma grande saga, também há algumas coisas que a afastam da categoria de obra-prima. Em concreto, uma.
Tramas simples para um desenho tão espetacular
O principal problema é que as tramas não estão no mesmo nível do desenho. Não são ruins, são bem contadas e cumprem sua função, mas raramente surpreendem tanto quanto a parte visual.
Provavelmente seja por se limitar a um único volume (dois, em apenas um caso), o que faz com que tramas mais complexas não possam ser desenvolvidas, mas a verdade é que a série pede aos gritos uma série regular — algo que o desenhista não consegue manter, devido ao trabalho que cada página exige — ou uma graphic novel de 120 páginas com personagens mais desenvolvidos.
Aí Blacksad brilharia bastante mais.
Quanto às tramas em si, elas se apoiam em elementos muito reconhecíveis do noir: crime, investigação, poder, corrupção, segredos e personagens com dupla face. Tudo isso funciona em sua simplicidade relativa, mas não chega a ter a mesma força das páginas de Guarnido.
Como digo, é isso que impede que Blacksad seja uma obra-prima absoluta. Visualmente, é, sem dúvida nenhuma. Narrativamente, fica um degrau abaixo.
Veredito
Blacksad vale muito a pena, sobretudo se você valoriza o desenho, a cor e a capacidade de um quadrinho de criar um mundo próprio a partir da imagem.
É um universo muito atraente, do qual você só ficará de fora se se incomodar — como meu eu de 17 anos — com sua suposta infantilidade.
Se você se interessa por quadrinhos europeus, gênero noir ou animação da Disney, deveria ler.
E também se você gosta de ver até onde o desenho de um quadrinho pode se aproximar da animação cinematográfica.
Ficha técnica
| Campo | Dado |
| Título | Blacksad |
| Autores | Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido |
| Ano de início | 2000 |
| Volumes resenhados | Sete álbuns principais publicados atualmente |
| Gênero | Quadrinho noir / gênero noir |
| Personagem principal | John Blacksad |
| Editora original | Dargaud |
| Edição espanhola | Norma Editorial |
| Spin-off | Weekly, não resenhado aqui |
| Spoilers | Não |
Nota
Para quem é
✔️ Para quem quer uma obra visualmente espetacular.✔️ Para fãs de noir, Disney e quadrinhos europeus.
Para quem não é
❌ Para quem espera um roteiro e uma trama revolucionários.❌ Para quem procura um quadrinho infantil.
❌ Para quem procura um quadrinho 100% adulto (por ter animais).
❌ Para quem não se conecta com o noir.
Perguntas frequentes
Vale a pena ler Blacksad?
Sim, sobretudo se você valoriza o desenho, a aquarela e a expressividade acima de uma trama muito surpreendente. É uma das sagas mais reconhecíveis do quadrinho europeu moderno.
Blacksad é um quadrinho para crianças?
Não. Embora seus personagens sejam animais antropomórficos e possa lembrar visualmente a animação clássica, suas tramas são adultas e têm um tom noir bastante duro.
Quantos volumes tem Blacksad?
Atualmente, a saga principal deBlacksadconta com sete álbuns publicados. Esta resenha se concentra nesses sete volumes principais.
Quem são Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido?
Juan Díaz Canales é o roteirista deBlacksade Juanjo Guarnido é o desenhista e colorista. A série se destaca especialmente pelo trabalho gráfico de Guarnido.
Por que o desenho de Blacksad se destaca tanto?
Porque não é apenas bonito: também conta a história. As expressões, os corpos, a aquarela, a composição e a escolha de cada animal ajudam a entender os personagens.
Blacksad pode ser lido em edição integral?
Sim. Na Espanha existem edições integrais e também álbuns avulsos publicados pela Norma Editorial, conforme disponibilidade.
Weekly faz parte da saga principal de Blacksad?
Não exatamente.Weeklyé um spin-off centrado em um dos personagens secundários, mas esta resenha não o inclui dentro da saga principal.

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